Frau Rezewitze se irritava um pouco com os atrasos, com a ataraxia da
estrangeira. Lucinda também era assim, parecia ausente e não entender
tudo o que ela falava, embora soubesse perfeitamente o alemão, era distraída
e alegre como se não houvesse no mundo nenhum motivo para preocupações
latentes, dona de uma serenidade atávica, incompreensível para a anciã
carregada de história e guerra nas costas, de culpa e complexos nos
joelhos. Mas não passava de uma irritação momentânea, logo depois do
rápido cochilo de meia hora, ficava contente com a perspectiva da hora
do chá. Sobretudo na primavera, quando o sol da tarde ajudava a diminuir
a velocidade dos ponteiros no relógio de corda antigo, pendurado na
parede da sala, perto da estante, que sempre batia as badaladas, soando
as horas tardias em todo o interior da casa. O relógio pertencera ao
avô e tinha custado uma fortuna para ser restaurado, pois fora destruído
pelas bombas.
A peruana conhecia esta intolerância dos alemães, foi a primeira coisa
que lhe chamou atenção, a inflexibilidade, o nervosismo, a falta de
fantasia, como se tivessem todo o tempo do mundo para esconderem deles
mesmos a alegria de viver. Sabia que a patroa não gostava dos atrasos
propositais, mas não queria ser como eles, simplesmente não passava
pela cabeça ser como eles.
Viviane de Santana Paulo ist auch Autorin des Gedicht-Bandes
"Passeio ao longo do Reno"